Gostaria de deixar São Paulo, o lugar insólito que se alimenta de almas, deixar tudo para trás, no mais apressado e hediondo abandono - como se nunca tivesse estado ali ou absorvido aquele ar -, não para ir correndo à procura de Carlos, mas para tentar me desgarrar de toda e qualquer necessidade, inclusive dele mesmo, do ato de pegar em sua mão que se projeta doce e perigosamente em minha mente sempre que tenho um medo - preciso mesmo imaginar para esquecer. Os efeitos dos efeitos borboletas chegam aqui com força anormal, derrubando quem só conhece meios termos. Talvez por isso tenha ficado inerte e nunca consegui criar coragem para sair daqui. Nada prende-me aqui: não tenho amigos, família ou gato. Sou só.
Tenho uma paixão inexplicável que sempre me habitou desde a adolescência por Recife e Porto Alegre, que se me perguntarem porquê não sei dizer de onde veio. Mas a falta de dinheiro me impede de consagrar uma aventura, essa aventura de sair de São Paulo em minha história rasa, crédula e esperançosa demais, o que não diminui minha vontade de simplesmente sair. Tenho acordado todos os dias às cinco da manhã, abro minhas agendas de rascunhos dos livros já atrasados que preciso terminar e entregar à editora, e penso nesse momento em que pareço preso num pesadelo e me sinto sufocado querendo sair e sair e sair. Ai volto a escrever infinitamente, como nunca mais havia feito durante o tempo que Carlos esteve aqui, mesmo ainda não conseguindo dizer tudo que preciso. Preciso deixar "o viver" dessa cidade, onde seu substantivo é escravo do sofrimento. Talvez Recife e Porto Alegre sejam perto demais. Talvez Carlos Andrade esteja lá. Será que existe um lugar onde não se prometa felicidade? É que involuntariamente fica-se sedento por ela, mesmo sem se saber o que é.

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