terça-feira, agosto 12, 2014

ADEUS, SÃO PAULO!

    A solidão de "ser só" sempre me foi intrínseca desde que nasci, mas depois da partida de Carlos Andrade a solidão de "estar só" tornou-se intrínseca a todos os meus dias também, deixando um vazio grande demais que nem mesmo posso abraçar. As coisas, então, ficaram mais difíceis, não bastassem os impropérios de uma cidade insuportavelmente indiferente que enxergo daqui desse apartamento de concreto bruto no décimo segundo andar do Copan, que de tão poucas paredes se enche de uma prepotente liberdade, onde me desolo de inconformação por tanta frivolidade, sentimentos áridos, titubeios, esvaziamentos, evasões, e outras síndromes desses tempos que agora tenho de lidar sozinho sentado num canto gelado, na indecisão de uma quina, esperando por alguma coisa. Resta-me agora somente a imaginação de uma criança, o que não sei se consigo manter, porque é tão pura e difícil de se alcançar. Às vezes penso que Niemeyer concebeu o Copan em formato sinuoso na tentativa de instigar um tipo de movimento ilusório em cada vida pacata dali, atentada pelos mesmos sentimentos que os meus ou minimamente parecidos, tentando contrapor a mesmice de todo o resto. Mas nem sei um dia minha vida chegou a sair do lugar. Se saiu, não percebi.  

    Gostaria de deixar São Paulo, o lugar insólito que se alimenta de almas, deixar tudo para trás, no mais apressado e hediondo abandono - como se nunca tivesse estado ali ou absorvido aquele ar -, não para ir correndo à procura de Carlos, mas para tentar me desgarrar de toda e qualquer necessidade, inclusive dele mesmo, do ato de pegar em sua mão que se projeta doce e perigosamente em minha mente sempre que tenho um medo - preciso mesmo imaginar para esquecer. Os efeitos dos efeitos borboletas chegam aqui com força anormal, derrubando quem só conhece meios termos. Talvez por isso tenha ficado inerte e nunca consegui criar coragem para sair daqui. Nada prende-me aqui: não tenho amigos, família ou gato. Sou só. 

    Tenho uma paixão inexplicável que sempre me habitou desde a adolescência por Recife e Porto Alegre, que se me perguntarem porquê não sei dizer de onde veio. Mas a falta de dinheiro me impede de consagrar uma aventura, essa aventura de sair de São Paulo em minha história rasa, crédula e esperançosa demais, o que não diminui minha vontade de simplesmente sair. Tenho acordado todos os dias às cinco da manhã, abro minhas agendas de rascunhos dos livros já atrasados que preciso terminar e entregar à editora, e penso nesse momento em que pareço preso num pesadelo e me sinto sufocado querendo sair e sair e sair. Ai volto a escrever infinitamente, como nunca mais havia feito durante o tempo que Carlos esteve aqui, mesmo ainda não conseguindo dizer tudo que preciso. Preciso deixar "o viver" dessa cidade, onde seu substantivo é escravo do sofrimento. Talvez Recife e Porto Alegre sejam perto demais. Talvez Carlos Andrade esteja lá. Será que existe um lugar onde não se prometa felicidade? É que involuntariamente fica-se sedento por ela, mesmo sem se saber o que é. 

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