Às vezes esqueço as palavras que já tinha aprendido e sou grosseiro simplesmente olhando para o vácuo ou balbuciando coisas que eu não lembro ou sei o que significam, e finjo não estar interessado em ouvir nem mesmo a prosa mais deliciosa sobre Clarice Lispector ou Rimbaud. Perdoe-me: esta falta de modos é proveniente dos meus nervos que num surto catatônico e abrupto convalescem e revelam minha verdadeira essência penosa de ser humano desajeitado e inexperiente de protagonista da própria vida. São esses malditos nervos que acentuam minha fraqueza trêmula para a felicidade repentina e o desconhecido, não obstante ser gente e, diariamente, ter que implorar por um milagre para sobreviver. Se não consigo fitar os olhares mais preciosos que surgem em meio a um tumulto numa noite fresca de lua cheia é porque estou catando pelo chão o brio que me resta, e se não conseguir fazê-lo e fitar aquele que deveria, devo pagar e ser devorado por uma vida eterna de domingos solitários. Tenho medo da felicidade - estou sendo completamente verdadeiro, mas não sei porquê. Talvez seja o coração que agora sente uma angústia do tamanho do tempo.

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