Comprei o terno e o sapato pretos, a camisa branca, a gravata amarela e as abotoaduras douradas. Mas não casei. Não porque a paixão - que dizem ter prazo - acabou, e o amor não foi suficiente para preencher o rombo que existe desde que se nasce e que a paixão cronicamente expansiva enlarguece pra poder caber. Não. Com as mãos seguras e um silêncio energicamente confortável, ainda sentia diariamente como se fosse a primeira vez as mesmas pontadas de emoção e o ar quente que partia do coração, e circulava e bombeava o corpo, deixando a respiração arfante à beira dos pulmões explodirem. Isso era uma alegria profundamente verdadeira, o que poucas vezes aconteceu em mim. Isso foi o que procurei a vida inteira.
Também não casei não foi por causa do medo de aventuras - tudo o que acontece nos intervalos da vida -, o que acomete a maioria dos indivíduos hoje em dia, não só aqui no Rio de Janeiro. Paixão é uma aventura. Amor é uma aventura. Duas pessoas juntas são uma aventura. E nenhuma delas depende do tempo para ser intensa, porque todas são naturalmente intensas e violentas desde a primeira unidade incontável de tempo que começam. Não existem aos poucos. Eu nunca tive medo das aventuras que acontecem nos instantes, na verdade, sempre tive um devoto apego a elas, principalmente ao amor e à paixão, porque todas me fizeram sentir especial, ter momentos especiais.
E por que não casei? A verdade é que não escrevia há mais de um ano, e escrever é uma aventura que me deixa vivo sem precisar ter consciência disso.

Nenhum comentário:
Postar um comentário