Sempre tive tanta dificuldade de lidar com o instante, que tenho medo de me mexer e saber do que se trata o próximo. Então eu vim para esse lugar, onde eu me refugiei para ficar vivo e tentar escapar desse circuito interminável de almas que me habita e me obriga todos os dias a procurar um ar que parece não existir. É um lugar que não posso pronunciar, senão deixo de ser fiel a mim mesmo e termino voltando milhares de instantes, ficando pior do que estou. Mas não era assim até eu ter a consciência do thauma que me abateu e me cansa fazendo dar um suspiro seco por segundo. É esse thauma que hoje me dá a tristeza onde eu vivo, me refestelo e escrevo prosas e peças infinitas de sofrimento sobre um amor que não consigo reprimir - reprimir, porque não posso superar, já que superar exige assassinar o coração. Dentro destes instantes de repressão que passam enquanto escrevo, sinto o esforço que já fiz na busca pelo que chamam de felicidade, e percebo que a "infelicidade é mais sútil", como uma vez disse uma sábia ucraniana das palavras. Quando pensei nisso me espantei, mas logo conclui que infelicidade é apenas a falta de felicidade, é simples, como eu preciso ser e as coisas que se revelam ao redor também. Eu queria apenas falar: as palavras escritas precisam de liberdade. Falar toda a reprimenda que se instala nesse corpo do qual nada restará. Falar o juramento que fiz onde digo: juro, eu juro que tentei, mas o sentimento se sobrepôs a mim, me carregando para um estado onde só seria possível sair com a morte ou com o amor pleno que me preencheria de maneira tão doce que jamais desejaria mais nada. Perdão, mas o que é oferecido em troca do amor eu não posso aceitar, pois sou apenas um ser que ainda precisa de coragem pra atingir um momento de ser magnânimo. Minha penitência, então, é ter todas as almas que me habitam violentadas pela saudade e sedentas pela companhia desse sentimento que só se conhece uma vez nessa vida. Perdoe-me mais uma vez, é que eu precisava falar sobre essa aflição impetuosa que vive dentro de mim alimentada pela indiferença e pela rejeição. Vou ficando no silêncio mais uma vez, como se nada tivesse sido dito, indo para os aposentos da solidão - solidão de mão, solidão de corpo, solidão. Perdão.

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