Ainda não me acostumei a ter que caminhar pelo corredor escuro e cheio goteiras para chegar no 404. Mas vou, como se só existisse eu; e, de fato, só existe eu enquanto atravesso esse breu asqueroso que não se parece com nada que conheço. O mínimo barulho me assusta - a goteira é um estrondo, o vento fino é uma explosão, o oxigênio é o mundo caindo. Mas cheguei - num tom um pouco esbaforido. Como em todos os outros dias, deixei os sapatos orgulhosamente novos bem juntinhos perto da porta com as meias pretas podres dentro. Nem olhei pra nada e nem precisava. Sentei na cadeira velha de couro marrom que havia sido presente de meu falecido pai, enquanto que, involuntariamente, sentia o tapete felpudo que me fazia esquecer de mais um dia ordinário. Tapete que fora presente de um grande amigo que pegou um trem sem rumo - desconfio que para o Sul - e a essa hora nem sei por onde anda mais. A última vez que nos falamos foi há 33 semanas e suas últimas palavras foram "desculpa por tudo". Acho que seu peito foi mais um que ficou vazio. Ainda o sinto pulsar dentro de mim. Fiquei impaciente quando notei tudo isso e fui pegar um ar na janela. É, ainda mantenho a mesmo a forma. Ainda sou previsível.
Este vento que anda junto com a desesperança e que bate na minha cara diz que a única razão de termos vindo parar aqui nesse lugar oblíquo e incômodo é uma espécie de teste de sobrevivência, onde por vezes tem-se que suplicar para não sucumbir lentamente. Então, caso eu não saiba e caso você não sabia, meu caro alguém, existe uma condição para se ficar aqui: é suplicar. Aí, quando se tenta se livrar da condição que se nasce, o preço pode ser alto, às vezes a loucura - há quem duvide, eu não. E essa necessidade crônica de livramento é o que chamam de liberdade. Mas aos poucos tenho descoberto que não preciso de liberdade. Ser livre é tão perigoso. Quem já foi livre? Eu já tentei uma vez. Mas descobri que sou preenchido com tudo que preciso e que a liberdade é só uma tentativa de ter mais do que se pode e do que se precisa.
Estou aqui, bem aqui. No meio desse escuro transitório que não é fim de tarde, nem começo de noite, é a hora da Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco e com quem mais? Já antecipando seu pensamento: não tenho medo desse escuro, porque, na verdade, ele me alimenta e me leva para o lugar onde a solidão fica à vontade e se refestela. Não tenho medo mesmo desse escuro, porque nele confio plenamente. Talvez porque seja o melhor esconderijo dos impropérios e barulhos diários e ninguém tem coragem de invadi-lo, porque poucos conseguem suportar o que tem nele. Só ele é capaz de me manter vivo. Nele não sinto meus membros, só o coração que é suficiente; e o pensamento acontece na medida. Não preciso procurar complementos, porque aqui eu existo e sou comigo mesmo. Aqui não preciso de palavras de complacência, como "não fique assim", ou de encorajamento como "você vai conseguir". O escuro me dá mais que isso. O escuro me ama no silêncio, na mais plena incumbência e coragem da coisa.
Caibo nesta forma que estou e isso basta.
Sou eu bem aqui.
E ninguém nunca vai saber.

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