gostaria de contar-lhe sobre algo que aconteceu neste dia que antecede meu dia de nascimento. Há dias não criava coragem para concretizar um sentimento que pulsava e que não conseguia criar o brio necessário para fazê-lo. Mas por vezes ficava à beira de realizar essa vontade pulsante, tomava banho, escolhia a roupa mentalmente, pegava a chave e sempre sentava no sofá para fechar o editor de textos. E desistia. Até que um dia fui. Fui e caminhei pela praça Maciel Pinheiro numa tarde de outono agradável e encontrei um papel amarelo amarrado a uma frondosa mangueira e flamulando doidamente num vento que só aparecia durante um mês do ano. Estava escrito isso:
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Tem gente que passa a vida fazendo perguntas em excesso. Alguém como quem vos fala que no auge dos seus 30 anos não sabe viver a vida que deveria ou simplesmente poderia viver. Alguém que no auge dos seus 30 anos ainda trava uma batalha cansativa e insistentemente inconsequente com a intangível querida vida que ninguém sabe nem o que é.
Pergunte a alguém o que é vida e depois me conte as respostas. Talvez você e as pessoas as quais você ousou perguntar precisem de uma tarde inteira estabelecendo um diálogo hipotético ou simplesmente uma tarde em que você ouça-as falando ininterruptamente e absorto num pouquinho de cada teoria, às vezes beirando nem estar de verdade ali, involuntariamente. Uma hora Platão vai aparecer e por mais que a outra pessoa não goste, vai ficar um pouco pensativo sobre o fato de ser o primeiro a saber que as coisas questionáveis do mundo não têm resposta.
É por isso que me decido tanto a saber o que é vida; gostaria de ajudar as pessoas de alguma forma e quem sabe ajudar a mim mesmo também. Além disso, mais nunca mais fui pioneiro em nada e morreria por ser conhecido por um corte epistemológico. Não seria encantador? Ou assustador? Porque muita gente passaria a me conhecer, e não sei se suportaria. Há tanta gente no planeta e ninguém soube o que dizer. Ou talvez não tenha procurado direito.
Tenho um cavalo, uma plantação de dois hectares de avelã e uma coleção de canivetes. Mas certa vez encontrei um homem de aparência triste no caminho para a cidade que me pediu uma avelã e me disse que nada disso acalma a insegurança dentro do coração. Precisei de dois anos para entender e saber o que é preciso para ser pleno e seguro de si, e cheguei a conclusão que, na verdade, só é preciso ser você mesmo e ter a consciência de que ser você mesmo faz bem aos outros.
Aí, você que me lê - assim espero - me pergunta: “como alguém que vive a vida se perguntando chegou á conclusão de alguma coisa?”. Eu respondo: “eu apenas sinto, sou eu mesmo e não preciso provar nada pra ninguém”.
Só quero dizer que tive coragem.
Desejo-lhe coragem.
Coragem.
Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
Clarice Lispector

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