Comecei a voltar a escrever em papel margeado pelo qual sempre tive uma paixão incomparável e deleitante e incorruptível desde que (...), desde que descobri que vivo dependente da complacência da alma e me tornei entusiasta da metafísica. Mas fiquei tão impregnado de mim mesmo que precisei me desgarrar e resolvi me aventurar na modernidade proporcionada pela máquina de datilografar, o que me aconteceu no momento em que estava por encerrar mais um ciclo da minha vida e que ansiava avidamente a descoberta de alguma coisa nova, mesmo sabendo que até que se internalize a ideia do novo vai-se até o limbo para ver se se suporta a ansiedade.
Precisava sentir o prazer como o de quem morde uma manga e tem todo o caldo amarelo escorrendo pelo pescoço e fazendo cada pelo se ouriçar abruptamente; e poucas coisas guardam esse prazer. É preciso coragem para procurar. Então a máquina era isso. O que mais me faz é aquele barulho que é uma espécie de frenesi avisando "olha, você está vivo (neste mundo infernal) por mais que não queira". Era o que me fazia ficar ali todos os dias, impreterivelmente às quatro da tarde, porque o som de cada tecla era o anúncio de mim mesmo, o eu que saia aos poucos com a força bruta de todos os movimentos mesclados ao terror e à hesitação da rotina turbulenta, ansiosa, arfante, vacilante. Era o prazer da liberdade violenta por instantes. Uma liberdade mesclada a uma libertinagem adolescente que pouco apareceu na época que morei no Recife.
Diferente da máquina, o papel já é um extensão de mim, naturalmente. Então trocávamos de lugar constantemente, o que me permitia viver com mais delicadeza, às vezes me deixar e ser alguém com mais liberdade por mais tempo, liberdade digna, plena, e não desperdiçada. De um jeito que se esquece que você é alguém e simplesmente vive. Quando não me suporto mais é o papel que se torna quem ou o que preciso ser. E não preciso ter medo das consequências - que não são poucas - de toda a exacerbação da liberdade que sonho. É minha própria vida entrando e saindo através do meu próprio corpo.
Guardei isto durante cinco meses, mas só tive coragem de contar agora, porque algumas coisas precisam de um brio grande demais para serem expostas.
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