Desde a partida de Carlos Andrade, tenho lidado bem com despedidas, expectativas e esquecimentos. Não precisei pensar muito ou esperar uma epifania para sentir profundamente que uma hora esquece-se tudo que se quer ou o que se precisa esquecer, e que qualquer apelo para lembrança será indiferente. Mas acho até que esqueci demais, esqueci o que não queria, o que não precisava ou não deveria. Esqueci de mim mesmo. Aí passei a perambular por uma inconsequência como quem apenas sobrevive esperando que a vida acabe no instante seguinte ou simplesmente como alguém que foi sufocado uma vida inteira e agora clama por uma liberdade de ser, a qual se caça como o último animal da temporada no bosque. O animal é muito maior que tudo e que eu, sem precisar fazer qualquer esforço. Fitei-o, e fui levado a seu ninho sem qualquer relutância.
Mas dizem que tudo na vida tem uma consequência, aí é-se obrigado a aceitar o que vier na tentativa de se viver em paz. Isso talvez seja um outro problema, mais um problema, o que me faz crer que uma vida assim é impossível. Achei que tivesse conseguido bem sem nada, e cheguei a viver por um tempo sem sentir falta de nada e medo de nada ou de ninguém. Mas basta um estalo para perceber que tudo é igual, que a tristeza é uma amiga fiel, a saudade é uma extensão da alma e, que esse tempo destemidamente diferente não passou de uma alucinação febril. Então, começo tudo de novo, o que é uma coisa fadada a mim. Sou essencialmente nada. Nada porque o nada em um momento já foi tudo. Nunca consigo me transformar, apenas volto para o que sempre fui, depois da morte de cada ciclo que se encerra naturalmente ou que sou obrigado a encerrar. E começar tudo do começo cansa tanto.
Passei um tempo sendo cuidado por aquele animal, em estado de encubação. Sempre estive certo que era aquilo que queria e precisava, e fui vivendo, me alimentando, a fim de me tornar um filhote da liberdade suficientemente pronto para ser a própria liberdade. Sempre achei que procurava uma liberdade, uma liberdade salvadora, que me desse a ávida esperança de experimentar a normalidade cartesiana das coisas. A liberdade do calor que Carlos Andrade me dera, na verdade, que eu tentara sugar para suprir a falta de seu toque invisível. Mas a verdade é que sempre procurei Carlos Andrade em todos os lugares, a vida inteira. Esse é o motivo de tanta agonia. É desespero. A verdade é que a liberdade é eternamente cíclica e que Carlos Andrade estará em qualquer lugar que eu for.
É tão cansativo mesmo que, às vezes, só o que se quer é uma mão para segurar.
Entende o que digo?
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