Foi lindo aquele dia em a coragem tomou teu corpo e sorrateiramente foste segurando minha mão com uma delicadeza e um envolvimento tão grande, que esqueci que eu existia bem aqui, no olho desse furacão que é a vida na Terra. A cada nanocentrímetro meu que era tocado, uma parte por vez do meu corpo ia sendo desaquietada e respondia internamente com pululos bruscos de um ar quente que se expandia e se comprimia descompassadamente. À medida que esse movimento descontrolado se intensificava, chamava por um Deus que nem sabia se me ouvia e pedia que aquilo que, hora era prazer, hora era afago, nunca acabasse. Não, não ficaria alí até o sol nascer por três dias seguidos, isso é pouco, mas uma vida inteira, porque não meço nada.
Aí o tempo parecia ir mais devagar, mesmo que nós dois estivéssemos nos movendo na velocidade de um raio agressivo que procura seu destino, caminhando para alguma coisa que nem nós mesmos conhecíamos. Eu com um medo vacilante, mas com a sede de viver todas as inconsequências de um jovem de uma vez só; você calado sem dar uma pista sobre seu âmago, mas com o calor de quem tem o amor no lugar do sangue.
Todas as vezes que tua mão se encaixava organicamente na minha era como se fôssemos um do outro e, então, me sentia guardado com um carinho enorme. E cada vez que ela voltava suavemente a deslizar sobre a minha e devorava-a por completo sentia mais vontade de tê-la. Uma vontade que, aliada a tuas promessas de amor, me tirava as palavras, deixando-me inerme, somente com uma tímida sensualidade que intencionava lhe dizer "este corpo necessita de ti".Você se lembra? Por hora, parecia que nossas almas eram duas velhas conhecidas e amigas, que nunca se separaram, e que em todos os corpos que já habitaram, deram um jeito de encontrar e se amar.
Por essa hora estás aqui, com a cabeça cansada em meu peito, ouvindo pornograficamente meu coração exibir regozijo e desalento, enquanto o domingo passa, e esperando que as maiores e melhores coisas do mundo saiam de dentro de mim e crescentemente lhe invadam, dia após dias, silêncio vencido após silêncio vencido. Foste chegando, chegando, eu não sabia o que fazer, simplesmente aceitei, e de repente, já tinhas fincado um hospedeiro dentro de mim que me fazia suplicar por sua presença todos os dias, o dia inteiro, sem que nem mesmo pudesse perceber que, na verdade, a falta de frio que faz agora, é calor em excesso absorvido de ti.
Em nosso primeiro hiato, senti falta da tua voz e a ouvia principalmente nos lugares mais barulhentos por onde passava. No segundo hiato, senti falta da tua companhia que mesmo em tão pouco tempo de convívio já era como um destino certo que queria abraçar. No terceiro, não conseguia mais respirar e definhava com o frio agravado pela solidão de uma cidade em que as pessoas não se olham.
Você ali, repousado sobre em mim, nossa respiração de dois seres equilibradamente vacilantes se fundiam, e uma atmosfera utópica aparecia. Por um momento achei foste me abraçar forte e nunca mais me largaria. Mas tenho mais medo porque somos seres humanos. Somos dois corpos. Somos dois animais instintivos. Somos dois, e não sei se consigo fundir-nos, porque não sou forte o suficiente pra suportar viver sem ler pensamentos.
Fica aqui, segura minha mão e vamos escolher qual será o próximo extremo que iremos juntos.

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