domingo, maio 17, 2015

INTRANSPONIBILIDADE!





   Parece que o país vai se acabar dominado por uma loucura que fatalmente cega. São tempos catabólicos. E eu só consigo pensar que desde que estive no Rio de Janeiro pela primeira vez, no mês passado, uma das maiores preocupações da minha vida sempre foi ter aquele buffet de jacarandá com pés palito que vi numa loja de esquina, em Botafogo. Desculpe, é que me apaixono rápido demais e passo tantas noites sem dormir cultivando e cuidando (dos sentimentos) que não consigo lidar com impropérios que exigem de mim ser uma máquina ou um deus do Olimpo. 

Os tempos mudaram desde voltei e desci na plataforma do trem naquele outono de 1968, carregando só uma mala parda e o casaco no mesmo tom que só servira para charme. Notei, então, só pelo ar, que algumas coisas se perderam e outras foram extinguidas à força. Senti uma vontade imensa de sentar na plataforma com as pernas livres e suspensas sobre os trilhos. Mas depois de olhar ao redor e imaginar que poderia haver uma certa coerção, baixei a cabeça e tomei meu rumo até os bancos de madeira que, para minha surpresa, haviam sido agressivamente pintados de verde. 

Coloquei a pequena bagagem sobre o colo e repousei o casaco sobre o braço, e, aos poucos, tentei achar uma posição confortável o que parecia quase impossível pelo fato da curvatura do banco não ser nada ergonômica e pela agonia que me tomava por não entender o porquê de terem pintado o banco de verde. Não tinha nada a ver com o resto da estação que era toda projetada com motivos art déco em tons terrosos e detalhes de ferro. Pensei como algumas decisões na vida são arbitrárias e desprovidas de qualquer mensuração de consequência. E isso não tem nada a ver com inconsequência, é outra coisa completamente diferente. Ali eu tive vontade de não sentir mais a mesma vida que vinha sentindo. 

Irrequieto com tudo isso, à medida que cada pensamento era um golpe que secava a garganta, tentava manter a paciência de esperar o segundo e último trem até a estação mais próxima da pensão. É, os tempos me afetam, mas não consigo reagir. Enquanto, olhava o céu nebuloso, me dei conta que muita coisa ainda se repete: continuo amando rápido do mesmo jeito; continuo com as mãos suando quando me olham demais; continuo na tentativa de ler pensamentos anônimos e intrigado com a gente que se porta serenamente na estação; continuo querendo a solidão e uma revolução ao mesmo tempo na minha vida; continuo sem saber se acredito em mim mesmo. Todas são muito resistentes a mudança. E para cada coisa repetida, formavam-se ramificações de 10, 15 até 20 sub-pensamentos. E sempre termina no nada.

Por isso, ao mesmo tempo que tenho um medo danado de simplesmente viver, sem ficar pensando e falando demais ou em quais horas devo ser racional ou emocional, tenho uma vontade crônica que fica pulsando na cabeça de dizer todos os dias coisas de afeto, coisas que se sente e que precisam ser ditas antes que transbordem. 

Como fica o corpo que não diz nada? Não sei se tento esquecer do mundo de uma vez por todas ou se continuo. Gostaria que as coisas fossem mais simples. Que sentir fosse mais simples. Que viver fosse mais simples. Que se apaixonar fosse mais simples. Que saudade fosse mais simples. Que ser um animal pensante fosse somente um detalhe. Que a ordem natural das coisas fosse mais simples. Nem o natural é simples, porque, na verdade, é só forma de tentar mascarar o que não se sabe ou não se consegue fazer. Não vou dizer que preferia não sentir nada disso. Não, eu quero, até porque faz parte da essência humana. 

Mas é preciso não esperar nada e se tem uma que já tentei nessa vida foi viver sem expectativa, e digo: "quase morri". Aliás, esqueci o relógio em algum lugar, o da estação parou e enquanto estava absorto em tudo que a volta para a cidade me causou, todos foram embora sem que sequer percebesse. Não tinha mais como saber a hora, nem quando o trem iria chegar. Ia ter que esperar o trem não sei mais por quanto tempo. Sozinho. 

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