sábado, março 16, 2013

OITAVO SACRAMENTO!

Desceu apressado do bonde no exato momento em que a via-sacra se preparava para a quarta estação. Já era tarde para aquele bairro residencial que se recolhia cedo. Daquele instante em diante, baixou a cabeça e adaptou os passos ao modo de andar de todos aqueles que reviviam o caminho de entrega Dele, depois de um dia de trabalho extenuante. Havia duas pessoas na porta de uma casa simples ao redor de uma altar improvisado coberto por uma toalha de bordado branco e uma vela que tinha a chama endoidecida pelo vento de fim de verão à espera do que viria. Aos trinta e tantos anos, não era um religioso típico, principalmente, porque, ao longo da vida, deixara de ir à missa aos domingos. Mas era simpatizante de São Judas Tadeu, por seus motivos próprios e incontestáveis, e sabia rezar o credo. Olhou para trás uma única vez, já perto de virar a esquina, e a liturgia tomou seu coração, lembrando de suas dores, e perguntando-se quem iria carregá-las e chorá-las - um pouco inconformado e aceitativo ao mesmo tempo. Por um instante pensou em ficar, mas temeu que Ele, coberto de complacência e luto, esquecesse de lhe proteger na última quadra que faltava para chegar em casa.

Nenhum comentário: