Renasço todo dia e saio do útero virado de cabeça para cima. Sou trazido para o mundo carnificinalmente, enfadado ao compromisso e ao destino de ser igual e diferente. Não me faço perguntas. Sou mudo e quieto como o mangue, pouco notado, mas desempenho uma função já que estou aqui. A verdade é que vou me anulando com medo de me perceberem e me intimarem para viver. Vou me anulando e me acumulando como uma bomba de efeito apreensivo prestes a explodir num vulto. Mas eu renasço, e ainda não entendi por quantas vezes e com que intenção. Meu tempo se esgota todo dia, antes do fim do dia, antes que haja tempo de pronunciar "eu". Me liberto do invólucro oblíquo, mas logo estou preso dentro do mundo - que me sufoca, me obriga a lutar e me caça como um último ser - outra vez.

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